
O passado é um grande professor que utiliza as histórias para ensinar aos seus pupilos que procuram aprender. E como todo bom professor, esse não cospe a resposta nos olhos, e sim, coloca a resposta nas entre-linhas, onde somente aqueles com o conhecimento verdadeiro pode entender, ou seja, aqueles que sabem como saber.
Essa história não trata da folha, e sim da árvore, não trata dos anéis, e sim dos dedos, nos mostra o verdadeiro visionário, que tem os olhos invertidos. Pois o verdadeiro entendimento, a pura razão, não é encontrado pelo caminho vertical ou horizontal, e sim pelo caminho interno.
Em uma viagem à praia, uma família do interior de um lugar qualquer, estava aproveitando um dos melhores momentos em família que iriam ter em toda a vida.
Os gêmeos, mais novos, brincavam com a areia, a filha já moça fazia amizade com a nova e passageira vizinhança e o casal conversava sobre as memórias no melhor clima saudosista.
Quando focamos muito tempo no trabalho, no dinheiro, ou em outras metas materiais e não nos damos tempo para gozar o lado óbvio da vida, fica fácil dizer que a felicidade é produzir riqueza para aquele que nem conhece, ou comprar um objeto que amanhã, quebrará. Mas quando nos concedemos tempo para nos mesmos é quando podemos ver a real essência do que é felicidade.
Naquelas férias, um almoço não foi só um almoço, e sim uma explosão de cores e sabores de preço tão exorbitante que não há moeda que pague. Uma gincana entre amigos foi tão divertida que aquele programa de entretenimento julgado engraçado, mas que no outro dia era descartado, se tornou enfadonho.
Jamais aquele casal esteve tão feliz em serem casados, a filha em ser amada e os gêmeos em serem adotados. O sentimento de gratidão inundava a família e os deixavam leves, sem preocupações. Talvez essa fosse uma mostra do paraíso prometido.
Prestes a retornar ao velho lar, aos queridos mascotes e a velha mobilha. Todos com ânimos renovados... chega a hora de despedir do lugar que tanto os fizeram bem. Despedir do mar que os limpou, do céu que os abrigou, do sol que os acalentou.
Acompanhar o sol é ver viver. Pois a vida é um ciclo, de altos e baixos, calores e sombras, ora atrás das nuvens ora em céus abertos... e o sol nos permite enxergar isso dia após dia. O sol nasce, cresce e morre todos os dias, assim como nós. Mas o que o faz tão majestoso não acontece enquanto ele está no alto, mas quando ele se põe, porém ainda fazendo com que o seu brilho chegue a nós, fazendo-nos lembrar-lo.
O fim de tarde naquela praia foi como em todas as outras, tinha pessoas se exercitando, jovens rindo, mulheres se bronzeando... e por ser como todos os outros, esse lugar não estava isento da parte escura, que ninguém deseja estar, mas que não podemos nos ausentar.
E como em um sopro fétido, quinze minutos se passaram de uma maneira impetuosa, que ninguém que ama merece passar, e que jamais o recuperaram.
Foi assustador, pessoas corria, alguns gritavam, outros como essa família, tentavam entender. Mas não demorou muito para tal. E num ato de instintividade consciente os mais velhos seguraram as mãos dos mais novos e por consequência os mais novos seguraram as mãos dos mais velhos.
A adrenalina corria nas veias enquanto a mente proporcionava visões, imagens que formam uma sequência sem sentido, mas uma alternação de verdades. Imagens sem sentido aparente desempenhar um bom papel quando a intenção é resumir uma vida.
E em instantes de segundos ou em centenas de milênios, se foram as vestes e ficaram as almas. Na verdade, naquele momento, algumas vidas vazias, provavelmente muito machucadas e destorcidas, levaram apenas o mais superficial e sem valor que se encontraria naquele pequeno, e agora selvagem, território. Nada que não poderia ser recuperado em alguns dias.
Quando aquela rajada passou, um insuficiente homem da lei perguntou:
-- Vocês estão bem? Levaram muita coisa?
E a resposta aconteceu em pensamento conjunto, formando um coral silencioso.
-- Estamos bem, obrigado.
Logo os olhos de preocupação por obrigação do tal homem se dissipou e estavam a sós novamente.
Agora que estavam cada um fazendo suas malas, todos estavam elegendo que lembranças colocar no bagageiro e quais descartar. Mas o tal acontecido, com certeza, foi com eles, pois acontecimentos marcantes são escritos com tinta, você pode tentar apagar ou virar a página, mas seja em um lugar ou outro, eles estarão lá. Resta não ignora-los e aprender com eles.
A viagem acabou, a rotina se restabeleceu. E enquanto o casal se prepara para dormir, recordam da pergunta do homem fardado de pouca utilidade havia feito á família, porém não havia sido respondida:
-- "Levaram muita coisa?"
Um olho para os olhos do outro, tomaram a consciência de que seus maiores tesouros continuavam debaixo do mesmo teto, como sempre foi. E a resposta havia sido tida, mas ninguém precisou dizer sequer uma palavra, a vida tinha se encarregado de dizer tudo.
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