O (A) brasileiro (a) participante da grande massa noveleira deste país sabe que é deveras significativo estar representado em frente às câmaras, sobretudo em frente as da Rede Globo, e nos roteiros de Manoel Carlos. É sempre uma “alegria” saber que aquela cena está sendo gravada na sua cidade, que aquele personagem tem o seu nome, ou até mesmo ouvir que a atriz da novela das nove é parecida com você. Representação simbólica é importante
Um par de atores interpretando um casal homossexual estável (ou não), ou duas atrizes interpretando um simples beijo para uma audiência de milhões de brasileiros e centenas de vizinhos é, com certeza, um passo para a representatividade e a visibilidade homoafetiva no Brasil. Mas não é o suficiente.
Há séculos, ter um relacionamento com uma pessoa do mesmo sexo é considerado crime hediondo aos olhos da classe dominante, vestida com uma máscara branca e fundamentalista de “família tradicional” para sustentarem seus preconceitos e incitações de ódio. Em países como Rússia, Nigéria e Uganda ser LGBT não é “considerado” crime, é um crime!
Podemos analisar o objeto — “cena televisiva de um casal homossexual em representação afetiva” — de várias maneiras, tomo nesta perspectiva a variável da VISIBILIDADE LGBT. Temos neste ato milhares de famílias homoafetivas que em várias escolas, supermercados, bancos, postos de saúde, hospitais e todas as outras instituições e aparelhos que pertencem à vida digna de qualquer família, sofrem por não serem (re) conhecidos em suas características familiares. Por não terem visibilidade, nenhum veículo de comunicação os vincula, nenhuma citação nos livros de história, nem didáticos. Nada os consideravam simbolicamente importantes, até agora.
Neste momento temos a ascensão da categoria LGBT em vários setores da sociedade e da economia, abrindo assim várias portas de inclusão social. Vendo a cultura e a comunicação como aparelhos sociais, temos em um beijo televisionado entre duas mulheres um passo para a INCLUSÃO SOCIAL dos casais homoafetivos no Brasil.
Finalmente o “Pink Money”¹ pode atingir os gestores da indústria cultural brasileira, assim “comprando” um espaço na novela das nove para serem menos hostilizados, mesmo nos espaços que lhes pertencem.
Mesmo trazendo uma carga excessivamente pessimista, comemoro essa conquista. Muito embora não pude deixar de me ofender com os comentários homofóbicos de pessoas sentindo ofensa em ver outro tipo de expressão sexual no seu veículo de comunicação tradicional.
Temos neste momento uma luta gigante para o futuro, mas temos uma vitória a ser comemorada no presente. Temos beijo para as gay, beijo pras bi, e um beijo pras travestis!
1- O “Pink Money” (dinheiro rosa) descreve o poder de compra da comunidade gay,especialmente no que diz respeito as influências políticas do poder de consumo.
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