E se acontecesse um evento
científico que estivesse disposto a discutir e combater toda a violência às
mulheres trans!? Imagine uma mesa de discussão da possibilidade do
“mulherzinha” (ou seja, o menino com identidade e expressão de gênero
femininas) poder deixar de ser constrangido por suas características, para
poder ser respeitado em toda dignidade de vida!? Vislumbre uma apresentação
artística que pudesse chocar as pessoas e dizê-las que ser “gostosona” não é
uma regra!?
No dia 25 de Julho, chega a
Universidade Estadual de Maringá a professora francesa Marie Hélène Bourcier,
da Universidade de Lille II -- que é uma estudiosa na Teoria Queer e uma
ativista do movimento lésbico -- para participar de um simpósio organizado pelo
programa de Pós-Graduação em Educação da UEM, coordenado pela professora Dra. Patrícia
Lessa, chamado Simpósio Internacional Marie Hélène Bourcier na UEM. O evento
contou com uma programação intensa de debates, palestras, dentre outras atividades,
que preencheram o calendário da UEM para última semana do mês de Julho.
Infelizmente não estive na
II Ocupação Artística e participei pouquíssimo das discussões do evento. E para
saber mais, entrevistei algumas mulheres que compuseram o evento e a Ocupação.
Fui em busca de conhecer
melhor os detalhes do evento, sobretudo no que diz respeito à programação do
quarto dia, nomeado como II Ocupação Artística (ou OkupArt), onde foram
apresentadas performances na temática feminista com ênfase na contestação das
concepções de padrões e conceitos de beleza atribuídos à mulher e a aceitação
das características próprias de cada mulher, bem como a visibilidade de toda
sua diversidade.
“Buscamos com este projeto
beneficiar o maior número de estudantes e jovens equipes de pesquisa na área de
gênero e sexualidade no Brasil. Dentre os objetivos
propomos: desenvolver atividades interdisciplinares sobre política, sexualidade
e gênero; promover a integração da UEM junto aos trabalhos desenvolvidos pela
Dra. Marie Hélène na Universidade de Lille”,
disse a professora Dra. Patrícia Lessa (coordenadora do evento) sobre o
objetivo do evento e da Ocupação.
Fizeram parte da Ocupação
Artística quatro performances, dentre as apresentações estava Fernanda
Magalhães com “A Natureza da Vida”. Fernanda repercute seu trabalho em nível
internacional, sua marca é expor seu corpo nú de mulher gorda em locais comuns,
com isso Fernanda se torna porta-voz da visibilidade da mulher não-convencional
mesmo quando a própria não confirma a pretensão.
A participação de Fernanda
Magalhães é a que impulsiona e toma a maior parte do foco das repercussões do
evento, principalmente no tocante da crítica superficial de algumas opiniões
conservadoras repercutidas por um jornalismo tão raso e infundado quanto. “Eventos
como este buscam refletir e atuar nestes campos provocando as estruturas através
das pesquisas e criações”, disse Fernanda.
Fabiana Carvalho (ou Fabiana
Fabulosa) é professora do Departamento de Biologia da UEM, estudante de Artes
Cênicas e foi uma das performers da Ocupação. “Abrace...” é sua performance,
que conta com a participação da também estudante de Artes Cênicas da UEM
Daniele Maria, onde as duas tomam as dores de todas as violências direcionadas
as mulheres. Para simbolizar a violência Fabiana idealizou um “banho” de tinta
vermelha, de jornal picado e outro de cacos de vidro temperado sob o seu corpo
e de Daniele. “Em algum momento das nossas vidas, por conta destes discursos
que agregamos, começamos a nos questionar se não estamos fora do lugar?”, disse
Fabiana sobre a relação com seu corpo. “Eu possuo sobrepeso, não sou um corpo
magro, mas ao mesmo tempo sou branca, professora Universitária”, completou
Fabiana sobre sua posição social e a ideia de “tomar as dores das violências às
mulheres”.
Como pudemos acompanhar nos
dias seguintes a Ocupação, a repercussão do evento não foi toda positiva,
principalmente por ter sido retratada por um jornalismo despreparado e
comentado por um público conservador e leigo. Patrícia Lessa destacou um dos
comentários que chamou atenção: “Eu fico admirada com o nível de cidadania das
pessoas que comentam contra o evento. Nenhuma delas tem argumentos lúcidos para
criticar a ocupação artística da UEM. Apenas ficam fazendo juízo de valores,
tachando as artistas de “maconheiras”, “desocupadas” e outras pérolas do mesmo
nível. É uma crítica muito rasa. Não conseguiram com isso desmobilizar nenhuma
das meninas que se dispuseram a mostrar os corpos nus.”, por Margot Young.
Devemos
reconhecer e entender que todo o evento foi muito bem pensado e construído
coletivamente, como pude perceber. Todas as discussões e a programação
artística foram pensadas por mulheres com uma propriedade gigantesca no
assunto. O Simpósio Marie Hélène Bourcier na UEM é um evento científico e
artístico que repercutiu em nossa cidade rumo à discussão das questões de
gênero que são abafadas pela nossa mídia e o pensamento conservador.
Concluo com uma parte da
entrevista que fiz com a professora e performer Fernanda Magalhães: “Penso que
as pessoas têm fobia da gordura, horror, pavor. Isto é construído através dos
discursos médicos, de consumo, da moda, da mídia, da publicidade, isto é, dos
discursos de poder. A mulher gorda em especial é um mix das fobias à gordura e
dos discursos que tratam o corpo da mulher como objeto. Portanto o corpo da
mulher gorda é um corpo considerado totalmente fora dos padrões, considera-se
este um corpo a ser desconstruído e, de preferencia, extinto, a qualquer
custo”.
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