sexta-feira, 12 de setembro de 2014

QUEM TEM MEDO DE MULHER GORDA?

E se acontecesse um evento científico que estivesse disposto a discutir e combater toda a violência às mulheres trans!? Imagine uma mesa de discussão da possibilidade do “mulherzinha” (ou seja, o menino com identidade e expressão de gênero femininas) poder deixar de ser constrangido por suas características, para poder ser respeitado em toda dignidade de vida!? Vislumbre uma apresentação artística que pudesse chocar as pessoas e dizê-las que ser “gostosona” não é uma regra!?

No dia 25 de Julho, chega a Universidade Estadual de Maringá a professora francesa Marie Hélène Bourcier, da Universidade de Lille II -- que é uma estudiosa na Teoria Queer e uma ativista do movimento lésbico -- para participar de um simpósio organizado pelo programa de Pós-Graduação em Educação da UEM, coordenado pela professora Dra. Patrícia Lessa, chamado Simpósio Internacional Marie Hélène Bourcier na UEM. O evento contou com uma programação intensa de debates, palestras, dentre outras atividades, que preencheram o calendário da UEM para última semana do mês de Julho.

Infelizmente não estive na II Ocupação Artística e participei pouquíssimo das discussões do evento. E para saber mais, entrevistei algumas mulheres que compuseram o evento e a Ocupação.

Fui em busca de conhecer melhor os detalhes do evento, sobretudo no que diz respeito à programação do quarto dia, nomeado como II Ocupação Artística (ou OkupArt), onde foram apresentadas performances na temática feminista com ênfase na contestação das concepções de padrões e conceitos de beleza atribuídos à mulher e a aceitação das características próprias de cada mulher, bem como a visibilidade de toda sua diversidade.

Buscamos com este projeto beneficiar o maior número de estudantes e jovens equipes de pesquisa na área de gênero e sexualidade no Brasil. Dentre os objetivos propomos: desenvolver atividades interdisciplinares sobre política, sexualidade e gênero; promover a integração da UEM junto aos trabalhos desenvolvidos pela Dra. Marie Hélène na Universidade de Lille, disse a professora Dra. Patrícia Lessa (coordenadora do evento) sobre o objetivo do evento e da Ocupação.

Fizeram parte da Ocupação Artística quatro performances, dentre as apresentações estava Fernanda Magalhães com “A Natureza da Vida”. Fernanda repercute seu trabalho em nível internacional, sua marca é expor seu corpo nú de mulher gorda em locais comuns, com isso Fernanda se torna porta-voz da visibilidade da mulher não-convencional mesmo quando a própria não confirma a pretensão.

A participação de Fernanda Magalhães é a que impulsiona e toma a maior parte do foco das repercussões do evento, principalmente no tocante da crítica superficial de algumas opiniões conservadoras repercutidas por um jornalismo tão raso e infundado quanto. “Eventos como este buscam refletir e atuar nestes campos provocando as estruturas através das pesquisas e criações”, disse Fernanda.

Fabiana Carvalho (ou Fabiana Fabulosa) é professora do Departamento de Biologia da UEM, estudante de Artes Cênicas e foi uma das performers da Ocupação. “Abrace...” é sua performance, que conta com a participação da também estudante de Artes Cênicas da UEM Daniele Maria, onde as duas tomam as dores de todas as violências direcionadas as mulheres. Para simbolizar a violência Fabiana idealizou um “banho” de tinta vermelha, de jornal picado e outro de cacos de vidro temperado sob o seu corpo e de Daniele. “Em algum momento das nossas vidas, por conta destes discursos que agregamos, começamos a nos questionar se não estamos fora do lugar?”, disse Fabiana sobre a relação com seu corpo. “Eu possuo sobrepeso, não sou um corpo magro, mas ao mesmo tempo sou branca, professora Universitária”, completou Fabiana sobre sua posição social e a ideia de “tomar as dores das violências às mulheres”.

Como pudemos acompanhar nos dias seguintes a Ocupação, a repercussão do evento não foi toda positiva, principalmente por ter sido retratada por um jornalismo despreparado e comentado por um público conservador e leigo. Patrícia Lessa destacou um dos comentários que chamou atenção: “Eu fico admirada com o nível de cidadania das pessoas que comentam contra o evento. Nenhuma delas tem argumentos lúcidos para criticar a ocupação artística da UEM. Apenas ficam fazendo juízo de valores, tachando as artistas de “maconheiras”, “desocupadas” e outras pérolas do mesmo nível. É uma crítica muito rasa. Não conseguiram com isso desmobilizar nenhuma das meninas que se dispuseram a mostrar os corpos nus.”, por Margot Young.

Devemos reconhecer e entender que todo o evento foi muito bem pensado e construído coletivamente, como pude perceber. Todas as discussões e a programação artística foram pensadas por mulheres com uma propriedade gigantesca no assunto. O Simpósio Marie Hélène Bourcier na UEM é um evento científico e artístico que repercutiu em nossa cidade rumo à discussão das questões de gênero que são abafadas pela nossa mídia e o pensamento conservador.


Concluo com uma parte da entrevista que fiz com a professora e performer Fernanda Magalhães: “Penso que as pessoas têm fobia da gordura, horror, pavor. Isto é construído através dos discursos médicos, de consumo, da moda, da mídia, da publicidade, isto é, dos discursos de poder. A mulher gorda em especial é um mix das fobias à gordura e dos discursos que tratam o corpo da mulher como objeto. Portanto o corpo da mulher gorda é um corpo considerado totalmente fora dos padrões, considera-se este um corpo a ser desconstruído e, de preferencia, extinto, a qualquer custo”.

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