Sentado em sua cama, de baixo da janela de seu quarto, escorado pela parede, estava um jovem rapaz lendo contemporaneidades à procura de conhecer algo novo.
Os limites de sua visão eram restritos, delimitados por uma sociedade conservadora, de valores invertidos, e por sua mãe traumatizada pela sua trajetória, que buscava dividir com seus filhos todo temor, junto com toda a herança que jamais conseguira conquistar.
As virtudes de seu tempo lhe possibilitava viajar o mundo sem ao menos esticar um passo, tudo o que desejava poderia estar em sua frente em estantes. Como em um conto de fadas, seus desejos se tornavam ordens. Porém nessa história não cabem fadas, não retrata desejos realizados ou ao menos existe felicidade plena.
Se alguém oferece é para depois cobrar. Se parece saboroso, logo apodrecerá. Se aparenta ser barato, alguém terá de pagar. Em um mundo sem fantasias, nem mesmo a imaginação das crianças é pura inocência.
Enquanto lia aquele pedaço de papel de bordas maltrapilhas e sujas, de conteúdo de média relevância, existiam a sua volta alguns universos que co-existiam paralelamente uns aos outros. Dentre eles, o Universo Real, que já estava tudo aparentemente resolvido, só restava aceitar. O Universo Escrito, que estava sendo sepultado, porém sem nenhuma perspectiva de quando acabar. E o Universo da Imaginação, onde o relógio não habita e não se prevê o que acontecerá no próximo ato. E o que estava para acontecer, não se sabe em qual desses universos originou-se.
De supetão, o rapaz sentiu uma mão pelos seus cabelos, puxando-o com força contra a grade de sua janela. Em um instante, todos aqueles universos, juntos com toda a racionalidade construída ao longo dos últimos anos, haviam ido embora, sobrara apenas o instinto de defesa. Sem saber como reagir o rapaz tentava virar-se de frente para a janela, mas a dor de seus cabelos puxando seu couro-cabeludo não o deixava.
Enquanto sua consciência lutava com seu instinto para saberem quem estaria sobre o controle da situação, o garoto esperava uma fala de seu mal-feitor, mas nada ouvia. Não imaginava o que tal mão misteriosa intencionava, não se sabia de qual corpo esse braço vinha. Talvez nada disso importasse, se ele pusesse a pensar.
Um jovem rapaz que nunca foi de arranjar confusão, não teria motivos para inimizades ao ponto de vingança, essa hipótese é descartada. Também não possuía grande posses, não havia muitas coisas naquele quarto para serem cobiçadas, não fazia sentido ser um assalto. Sua família não era importante, não tinham dinheiro, não poderia ser um sequestro. E aquela mão o machucava de mais para ser uma brincadeira.
Talvez fosse o mundo mostrando que mesmo com portas fechadas e janelas engradadas, ele não estava seguro. E se polpar da luz do sol não o fazia mais seguro, ou menos vulnerável. Talvez fosse sua própria vontade pedindo para que ele saísse daquele lugar. É possível existir um mundo lindo atrás da sua paredes, mas, é certo que existe um mundo totalmente novo.
A mão pode partir do lugar mais inesperado possível, com a intensão mais inusitada. Tão louca que talvez seja seus sentimentos mais profundos. E em meio a toda essa divagação, o rapaz acabou por esquecer que havia algo puxando-o contra a grade de sua janela.
Como uma dor que substitui a outra, a mão deixara de existir, dando lugar a todas essas conclusões que havia de afetar o garoto de uma forma mais concreta do que a mão que não se sabe de onde vem, a quem pertence ou ao menos o motivo para que veio.
O rapaz pôs-se a chorar, pois ali estava nascendo uma nova pessoa. Aquela mão havia sido sua parteira, pois o fez sofrer, mas depois deixou-lhe uma vida inteira pela frente para cumprir sua missão.
Os ânimos se acalmaram. A respiração dele estava voltando ao normal e a adrenalina estava se dissipando pelo seu corpo. Ele abriu os olhos, mas não posso dizer que estava acordando, pois não se sabe se ele estava dormindo. Sabe-se apenas que o rapaz estava sonhando.

QUE DELÍCIA. Eu posso me ver nesse conto maravilhoso. Há poesia em cada milímetro de suas mãos, e eu amo essa síndrome de inspiração que tens, meu amigo. Você escreve tudo o que eu jamais conseguiria, e ler você é também ler a mim, ao meu inconsciente. Te amo.
ResponderExcluir