segunda-feira, 20 de outubro de 2014

PINTAR MINHAS PAREDES (2014)

foto: arquivo pessoal

Ainda há tinta cinza em algumas partes do meu corpo, mas a performance poética Pintar Minhas Paredes já aconteceu. A tinta que demora a sair me sugere a importância desse trabalho para meu conjunto da minha obra, me sugere que esta é uma das principais experiências que tive até então.

Como mencionado na síntese do trabalho - publicado no blog da Rachel Coelho, clique aqui - esta performance é fruto de um poema, que dá nome a performance poética, e de um happening que aconteceu em meu quarto, quando pintei meu rosto com tinta de parede pela primeira vez.

foto: arquivo pessoal
O processo desenvolvido para a corporificação poética que Pintar Minhas Paredes propõe, traz consigo características da espontaneidade (herdadas do happening) e da não-marcação dos atos, possibilitando assim em cada apresentação uma composição diferente, mas sempre ligada ao eixo principal.

A fusão do poema com a proposta performática se deu através da utilização de um recurso tecnológico, um "rádio de mão" em formato oval que reproduziu o poema já em perfil de áudio. Na apresentação, antes da projeção do audiopoema, com minha voz fatigada (como um robô) declamei a primeira sílaba do poema - "ao", em seguida reproduzi o poema.



Fiz uma pequena divulgação do trabalho, utilizei apenas meus contatos pessoais, com isso já esperava um pequeno público na apresentação. Contudo, não projetei nenhuma expectativa de público, nem mesmo de pouco, tive a preocupação em realizar a performance poética em um padrão único independente se o público fosse grande ou se estivesse sozinho. 

O resultado foi de pouco público, mas como não esperava, a emoção que fluiu no momento foi infinitamente superior a que imaginei. Também foi ingenuidade esperar menos de um poema que grita a morte injustiçada de uma mãe pobre. Tudo isso ainda vinculado com a simbologia dos jornais e a ideia de pintar para recomeçar me trouxeram imagens fortes e tudo isso contribuiu imensamente. 

Não pude deixar de notar o momento em que vi os olhos de minha mãe, que estava bem a minha frente, lacrimejando ao me ver ainda não pintado. Embora estivesse em busca de um estado de espírito não pessoal e distante das relações estabelecidas, não estive tão distante dos presentes, não fingi que não estava ali, como não interagi com o público. A relação entre eu e as pessoas que viram a performance foi oscilante, mas não museológica, ou cênica. 

Me lembro de colocar as mãos na lata de tinta e mexer os dedos no primeiro contato com a tinta naquele momento, aos poucos me pareceu que a tinta subia das minhas mãos para meu braço em direção a minha cabeça e depois para todo meu corpo. Carregar o rádio que projetava o poema minhas mãos e iniciar o relacionamento entre minha pele e a tinta também pelas mãos é simbólico, representa a fonte de concreção do poema; a mão que empunha a caneta. Me parecida que minhas mãos ainda estavam a manipular tinta, contudo, fora do tubo da caneta.

Durante a apresentação chorei e não escondi o choro, deixei fluir. Meu nariz escorria durante o choro e misturei a pinta com a coriza deste choro, me senti me pintando de mim mesmo.

Quando já estava a me pintar meu cabelo, um pouco de tinta escorreu pela minha testa e chegou a região dos olhos, o que gerou uma irritação de alguns minutos que me fez ficar de olhos fechados por um tempo. Abria aos poucos para não colar meus cílios e quando pude definitivamente abrir meus olhos, tive a visão mais embaçada e percebi meus olhos bem avermelhados. O que compôs uma nova estética de contraste entre o vermelho dos meus olhos e o cinza de toda minha pele. 

foto: arquivo pessoal
O enquanto a tinta secava em minha pele, o jornal (O Diário do Norte do Paraná), que cobria o chão, rasgava e a tinta pingava, sujando Biblioteca Central da UEM. Procurei acima de tudo não me relacionar com tais preocupações, bem como não me deixar afetar pelo nítido olhar de espanto dos funcionários da biblioteca, nem dos estudantes que passavam por ali. 

Ao secar completamente toda a tinta que cobria meu corpo, pouco demorei a sair do "cenário". Peguei a sacola e sai da biblioteca como qualquer aluno em direção a sua casa. Caminhei pelas ruas internas da Universidade com um pouco de susto das pessoas que passavam, creio que me camuflei no escuro e muitas pessoas não me viram, mas algumas sim. 

Antes de chegar perto do meu destino, a Oficina de Teatro da UEM, onde iria retirar a tinta, me sentei no asfalto que dava acesso a garagem da UEM, depois deitei. Fiquei exatos um minuto e vinte e sete segundos, que é o tempo de duração do vídeo que mostra o camburão arrastando Cláudia da Silva. Naquele momento me senti ainda mais emocionado, me senti mais Cláudia da Silva, me senti em contato com o asfalto quente, me senti cinza no cinza. 

foto: arquivo pessoal

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